"A história, escrita por António Torrado e baseada na vida de Francisco Mattos Lobos – o último enforcado em Portugal, em 1842 –, conta com Ivo Canelas no papel principal, à frente de um elenco de ilustres nomes...
De regresso à conturbada guerra civil entre absolutistas e liberais, traça-se o percurso de Mattos Lobo, o assassino tresloucado que, na noite de 25 de Julho de 1841, se deixa cegar pela paixão e rouba a vida a Adelaide Filipe da Costa [Maria João Bastos], aos dois filhos desta e à criada da casa. O auge está reservado, claro, para a cena apoteótica do enforcamento, a 16 de Abril de 1842."
"Quem passasse a meio da tarde pelo centro de Castelo de Vide, na magnífica praça entre a Câmara e a igreja, pensaria que tinha embarcado numa viagem no tempo, há 165 anos, quando Portugal enforcou o último homem condenado à morte.
A condenação à morte e o próprio enforcamento, ocorrido no Cais do Tojo, a Santos-o-Velho, a 16 de Abril de 1842, impressionaram a opinião pública, contribuindo decisivamente para uma reflexão da sociedade portuguesa sobre a pena de morte, que viria a ser abolida cinco anos depois."

Muito embora um pouco já fora de tempo, não posso deixar de 'estragar a festa' aos intervenientes no filme que as notícias referem, pois sempre ouvi dizer e contar aos mais velhos que o último condenado à morte a ser enforcado em Portugal havia sido um tal José Jorge, sepultado que foi após o acto no cemitério velho de Bragança, em local próximo do sítio da execução.
Avaliadas as datas dos acontecimentos, e após uma breve visita ao cemitério, facilmente se constata que José Jorge foi efectivamente enforcado quase um ano depois de Mattos Lobos o haver sido no Cais do Tojo.
A triste história de José Jorge, que o povo diz ter sido injustamente condenado, foi passando de boca em boca e ainda hoje os mais velhos a contam com maior ou menor detalhe.
Não consegui apurar o nome da rapariga. Era de Vila Verde [Vinhais] e dizem que de uma beleza invulgar. Na aldeia tinha um pretendente teimoso, não correspondido, que o seu coração pertencia por inteiro a José Jorge, soldado no Batalhão de Caçadores aquartelado no interior das muralhas do castelo de Bragança.
Perdido também de amores por ela, aproveita José Jorge uma folga de serviço e vai de meter pés ao caminho até Vila Verde. São uns bons vinte quilómetros a subir e a descer montes que ainda hoje, mesmo de carro, pela estrada que então não existia, bem aborrecidos são de fazer.
Ofegante na chegada, reconforta-o o encontro com a mulher amada, não longe da casa dos pais, ocupados noutro local com as tarefas do campo. Para alívio de tantos calores, resolve tirar o cinturão e despir o blusão da tropa, que tinha ido fardado, e coloca ambas as coisas sobre a erva macia.
Pouco depois, talvez também no chão, são alertados pelo chiar de um carro de bois que se aproxima. Sem tempo para mais, veste atabalhoadamente José Jorge o blusão, despede-se com paixão e toma rapidamente o caminho de Bragança. Que o namoro era desconhecido dos pais, e era sarilho certo para ela se alguém os visse juntos. Pelo caminho, José Jorge repara que havia esquecido o cinturão. Com receio de ser visto, no entanto, não se atreve a voltar para trás.
Ninguém sabe o que a seguir se passou. Certo, é que a rapariga apareceu morta no local do encontro. Junto do corpo sem vida, foi achado o cinturão esquecido. Que haveria mais tarde de servir como prova bastante para incriminar e condenar à morte o infeliz soldado.
Conta-se que no dia do enforcamento, entre o povo que a ele assistia se encontrava o tal pretendente rejeitado. E que muitos o viram rir enquanto José Jorge tristemente deixava este mundo. Pensaram então que talvez fosse dele, o carro de bois...
Mais de século e meio passado, ainda hoje muita gente vai junto daquela capelinha simples, que no local foi depois levantada, rezar pela alma de José Jorge. Que muitos dizem santo, para além de mártir...